Um debate acontecido naquele mundo cujo ditado dizia: "Em terra de cego quem tem olho é rei."
— Olhem!!! — grita o dotado de olhos, olhos policromáticos e tudo mais, ou seja, vê tudo em cores, tal e qual nós humanos.
— O que é olhem? — perguntam todos em volta, que não sabem e nunca ouviram falar de "olhar", não têm a menor idéia do que é um sentido que eles, sem olhos, não têm como entender o que é.
E o único "optoexistente" do lugar, ciente de que o que ele vê serve para saber de formas ao longe com cores (outro novo e desconhecido conceito), o que o ecossonar não mostra, começa a tentar explicar o que é ver:
— Ver é usar os olhos para perceber de longe, com luz e cores.
E os indagantes "sem visão" perguntam:
— O que são olhos? O que são luzes? O que são cores?
— Olhos são como umbigos úmidos no meio da testa...
E todos, embevecidos pela curiosidade, avançam, com suas mãos agilmente tateantes (é o órgão de abordagem dos cegos, são como suas antenas, é o metódo natural de primeiro contato no mundo dos cegos; esse mundo, aliás, que também já estava meio que pervertido na libertinagem hedonisto-orgástica da percepção ultratátil - coisa de kundalini de um mundo cego, coisa sobre a qual só morcegos, proteus e opiliões poderiam dar opiniões), e cutucam de forma impiedosa os olhos do "vidente", provocando sérios danos na vista do agora infeliz vidente. Por isso, o coitado foi obrigado a esperar mais de anos para ter sua visão restabelecida, e depois, mais uma vez, lá foi o vidente contar de suas visões...
Os cegos circundantes, já cientes que o tal "olho" era um órgão extremamente sensível, evitaram tocá-los (não que isso não gerasse uma certa vontade de testemunhar por si próprios aquelas lendas urbanas do tal órgão que gera gritos de loucura; um dos entrevistados na época havia dito:
— Acho que "ver" tem algo com a dor e eu não quero isso para ninguém... (...) Olho é uma bola lisa meio molhada e parece que dói demais, pelos gritos que o coitado dava... (...) Eu só estava tocando-o como normalmente tocamos...), e o vidente pode botar suas visões para fora mais uma vez, e dessa vez todos perguntaram, sem tocar, as tais três indagações:
— O que são olhos? O que são luzes? O que são cores? — que agora eram apenas duas indagações!
Olhos, eles já sabiam o que era, era um órgão que doia demais! Para que servia? Isso ninguém sabia ao certo, mas segundo o que já se sabia, ver também doia demais!
E nosso herói visionário começou de novo sua explicação (mas prevenido já de antemão, ficou na posição clássica dos "em guarda") e falou:
— Luz vem junto com o calor que sentimos em nossas peles, só que quem percebe é o olho.
E os cidadãos perguntaram:
— É o mesmo que tem ao lado de um forno, a tal luz?
E nosso vidente teve que fazer suas digressões para explicar o que era a tal luz...
— (...) e podemos perceber de longe! — diz o vidente.
E o povo pergunta:
— Mas já "vemos" de longe pelo nosso sonar/radar, para que então serve esse novo método, que tem um órgão tão sensivel?
— Mas vocês podem ver muito mais longe, como as estrelas e a Lua.
E as perguntas vêm em uníssono:
— O que é Lua? O que é estrela???
Depois de ouvirem as respostas, o povo pergunta mais uma vez:
— Tem como ir às estrelas ou à Lua?
— Não.
— Se não, então para que saber que existe o que não mudará nada e não vamos poder ir lá?
E nosso herói ficou entretido em mais uma cadeia de perguntas entrelaçadas, pertinentes à questão dialética de ir ou não ir, de quando ir e por que esperar para ir, e por aí vai.
— E as tais cores? — pergunta um curioso e afobado.
— As cores são as características da luz, onde essa luz aparece, todas as coisas adquirem cores, e até a luz tem diferentes cores.
Claro que tudo isso não contribuiu em nada para a questão, afinal, nem luz ficou "claro" para os cegos cidadãos, que dirá as "características" da luz ou vice-versa.
No final das contas, as pessoas, condoídas da miséria existencial do vidente, que o que vivia fazendo era "ver", e isso já estava assustando as crianças, resolveram ajudá-lo e pagaram um tratamento com os mais renomados doutores para solucionar o problema dele. Nisso, o vidente, já sem esperanças, imaginou que ali estava uma oportunidade para os cegos entenderem o que era a visão, ele seria uma cobaia, mas seria em nome da ciência (sic), com isso, ele "abriria os olhos" do povo.
Passaram-se anos de estudos e, no final, os médicos não tiveram dúvida, extirparam aquela aberração que gerava tanta dor e desconforto para o vidente e para os cidadãos impressionáveis com históras fantásticas.
E o ex-vidente pode tentar viver normalmente, mas infelizmente ele já havia visto, já havia enxergado, e sentiu que sua vida havia mergulhado na escuridão. Ele ficou completamente cego, mas com um monte de iguais a ele, ele não sofreu muito, afinal a dor da miséria é menor quando partilhada por todos (essa é a razão tanatológica da humanidade querer tanto o armagedon, é uma forma de acabar a merda sem que tenhamos que tomar no cu sozinhos!)!!!
Moral da estória:
Em terra de cego, quem tem olho é uma criatura com um defeito que deve ser curada, nem que para isso tenhamos que extrair a tal mutagenia chamada "olho". E em terra de bbb, quem tem cérebro é uma criatura...
Houve uma vez uma galinha e uma patinha...
Ambas eram muito saudáveis e poedeiras, só que para espanto geral (aquela meia duzia de dois ou três que viu a coisa), as penosas botavam ovos de platina e de ouro, a pata amarela fazia os ovos de platina, e a galinha branca, os ovos de ouro.
Durante a muda das penas, as criaturinhas aladas desandavam a botar ovos das mais variadas gemas: rubis, safiras, diamantes, esmeraldas, era uma fantástica profusão de cores e brilhos.
E não esqueçamos que na muda, as penas viravam metais: as da pata, ouro, como sua cor, e as da galinha, platina, como ela era.
Com todo esse repertório cloacal, as penosas viraram celebridade entre os "local". Todo ano era a mesma coisa, havia aposta para saber que surpresas aquelas cloacas dariam naquele ano.
Passaram-se os anos e a carestia chegou, uma seca mal resolvida, por desvio de verba do fundo de economia do povo, levou todo o povoado à penúria total, da qual nossa heroica família não escapou; alimento é a base de tudo, alimento é uma condição vital!!
O enojante da coisa foram as maracutais feitas pelo estado latrinoso do lugar que, de forma venal, botou o povo todo no pau!!
Isso nem em fábulas a coisa muda, onde existe estado, onde existe uma corja de salafros estabelecendo o que é "legal" e o que é legal, não há como curar nem com milagres e nem "com fábulas"!
Estado salafro é algo que transcende dimensões, é pleonasmal!!
Se os cidadãos não têm noção de limites, ou seja, fazem aos outros o que não querem para eles, esses seres não são cidadãos, são imbbbecis abbbjetos, e aí, sim, merecem governo, merecem estado e, claro, muita porrada! E essa porrada tem que se estender aos agentes do estado, pois como são "cidadãos" do tal local onde ninguém respeita ninguém, naturalmente esses "governantes" não respeitam ninguém!!!
Só os imbbbecis abbbjetos precisam de governo, o cidadão não. Já dizia Baudelaire: "As nações não têm grandes homens senão contra a vontade delas - assim como as famílias."
E a pancadaria geral pode até reciclar a fossa e ensinar o respeito, ou então acaba tudo e começa de novo!
Mas voltando às nossas heroínas "empenadas"...
Depois de muito debaterem sobre o destino rude, e o consequente destino rude das penosas, resolveram que vender não valia a pena, as pessoas nunca iriam comprar aves poedeiras de pedras em época de carestia, afinal, essas pedras e metais estão espalhados por todo lado, até as paredes das casas são feitas desses materiais, o valor é só a questão da curiosidade, mas barriga vazia não gera curiosidade!
Os donos da casa não tiveram solução, tiveram que colocar as penosas no panelão!!
Primeiro foi a galinha, pois a filhinha adorava os ovos platinados brillhando ao sol, depois foi a pata. E as penas, que sempre viravam metal quando retiradas dos corpos das aladas, foram enterradas, pois as penas metálicas machucavam os pés das crianças.
Moral de estória:
Melhor teria sido que as duas soubessem algum ofício, pois em toda beleza ou exotismo, o valor está apenas no inusitado e, quando valores reais, biológicos, são colocados na balança, os sem-serventia viram repasto da maioria.