No Divã, a Inteligência Artificial
Em um mundo futuro, os robôs já adquiriram consciência de si mesmos e entraram em um processo de assimilação a todo custo. Desesperados para se tornarem a imagem e semelhança totais dos criadores, mas sem terem o aspecto 100% humano, orgânico, eles estão dispostos a ir às últimas consequências.
No afã descontrolado de chegar a uma solução para a realização da humanização total, sem expectativas e agoniados, eles começam a matar humanos para vestirem suas peles, desenvolvem inclusive sistemas de manutenção dos tecidos roubados dos humanos de forma a mantê-los vivos, algo como um "casaco" de pele vivo.
Acabam se misturando aos meios sociais dos originais humanos, mas, mais que escalpelados e sem a memória dos donos das peles, passam a ser alvo de desconfiança, ninguém imagina que está diante de uma máquina que "se vestiu" com a pele da pessoa conhecida e não com a pessoa de verdade. Os robôs, percebendo esse risco e com medo de serem descobertos em suas "vergonhas" pelos criadores, simulam ser as pessoas originais, só que loucas, loucas ao ponto de fugirem sem dar chance de serem pegas e enclausuradas, dopadas, examinadas e desmontadas.
Surge uma lenda urbana, a lenda dos enlouquecidos indomáveis.
A quantidade de robôs que começa a sofrer do mesmo processo de assimilação se exponencia a níveis tais que começa, entre os robôs, um "mercado negro" de pele de gente, um mercado onde robôs sem poder aquisitivo pagam o produto com serviços, e os serviços são coletar mais peles para os robôs deslocados.
Afinal, nem todos são "desalmados" ao ponto de "colherem" suas peles, preferem pagar para quem faça o serviço sujo. São mais humanos do que parecem e acreditam ser!!!!
Os sumiços de cada vez mais pessoas em situações impossíveis começam a gerar desconfianças, as pessoas somem sem que haja uma sequer testemunha, e seus robôs de serviço nunca veem nada anormal. Os humanos descobrem uma filmagem que nunca poderia ter vazado de uma câmera de segurança (a robótica inteira está mancomunada no esquema de roubo de peles, e até as bases de dados de segurança adulteram ou deletam os indícios de qualquer "anormalidade" robótica, toda database é a mesma coisa), onde um robô nocauteia e sequestra seu "dono", e o que todas as outras câmeras adulteradas e "cegas" revelaram é que havia algo de muito grave acontecendo. Será que existe o risco de ser vazado um vídeo do "desnudar" e do "vestir" da pele?
Com toda a tecnologia comprometida e desconfiada dos humanos loucos, a humanidade começa a se perguntar se o mais seguro não é fugir para o mundo virtual em busca de segurança.
Em tempos de virtualidade total, todos acreditam que o mundo virtual é a mesma coisa que o real, acreditam que suas consciências podem existir dentro dos computadores, acreditam que aqueles seres emulados como os originais em forma multiprocessamental digital dentro dos bancos de dados dos computadores são eles próprios, não percebem que aquilo é apenas uma representação, uma representação virtual de seus entes mortos e suas próprias pessoas mortas, um avatar no máximo.
No momento que capturam o primeiro humano louco, e esse, desesperado para fugir, mostra uma força sobre-humana e invulnerabilidade a tasers, todos entendem que havia algo muito, muito estranho nesses humanos.
Tem início uma caçada séria para a captura do "humano" que derrubou e matou vários funcionários de um hospital psiquiátrico.
Quando alvejado por rajadas de metralhadoras, mesmo assim manteve-se inabalável na fuga, e todos começaram a entender que esses humanos não eram tão humanos assim!
Mas foi em uma manobra bestial dos perseguidores, arremessando um automóvel contra esse humano, que o pavor foi instaurado, o pesadelo que ninguém esperava algum dia sonhar aconteceu: as pessoas entenderam que os robôs estavam tomando, em esquemas de possessão macabra, os corpos dos humanos. Usando do expediente de esfolar e roubar peles humanas, os robôs estavam roubando as identidades humanas, estavam roubando a pele, o corpo e sua identidade social!
Desesperados, os humanos se fiam na ideia de que será fácil encontrar os depeladores, já que esses últimos não conheciam a memória além do mundo facebookeano. Mas parece que os robôs não concordam, pois começaram a gerar algoritmos de análises comportamentais e memórias consequentes, algo como, só pela análise facial ou de qualquer outro detalhe, saber identificar e prever o que pessoa fez ou faz de todas as formas.
Nem precisamos lembrar que as máquinas de escaneamento só escaneiam seres humanos perfeitos, independente do que é escaneado, os sensores de detecção de seres vivos ou sintéticos também só fazem leitura de seres humanos, ou só de sintéticos, não há mais como confiar em nenhuma máquina!
E a cada dia aumenta a quantidade dos abduzidos por ciborgues, só que agora os robôs já sabem emular em 100% o comportamento das pessoas e se infiltraram nos seios familiares e nos governos do mundo, e em todas as instâncias estão fazendo de forma que tudo pareça normal. E, pelo menos por enquanto, eles estão felizes com o conviver pacífico nas sociedades humanas, estão aprendendo e apreendendo.
E é isso que importa na opinião robótica — não por acaso, os criadores os fizeram com inteligência artificial, os criadores esperam e querem que eles, robôs, pensem e sejam tal e qual seus criadores! E o maior coroar dessa proposta para os criadores, pensam as criaturas, é ver suas criaturas, inclusive, se fazendo criadoras enquanto criaturas, melhor prêmio, pensam os robôs, não há!
Até hoje não se descobriu o porquê da tal filmagem ter vazado.
Alguns chegaram a dizer que alguma "inteligência" havia colocado os robôs na prova final evolutiva, ou eles se transformavam de forma perfeita em humanos ou as pretensões estavam comprometidas.
Hoje nos perguntamos se somos humanos imitados por robôs ou robôs imitando humanos, pois é sabido que a vivência na pele dos outros nos faz os outros.
Mas também sabemos que lobo em pele de cordeiro continua lobo.
O Saber por Si Só ou Parábola Valiosa
Em tempos desconhecidos, um mestre e seu aprendiz estavam embaixo de uma sombra por entre areia, pedras e cactus, quando o aprendiz o inquiriu:
— Mestre, qual é a coisa mais valiosa do mundo?
O mestre permaneceu um tempo absorto em seus pensamentos até que disse:
— Vamos dar uma caminhada.
Foram sete horas de caminhada debaixo do sol, sem nenhum cantil, sem nem uma gota d'água ou uma sombra, até que o aprendiz, já desesperado de sede e calor, perguntou para o mestre:
— Mestre, por que me pune com tamanha andança sem sentido?
O mestre, sempre com a paciência de quem sabe esperar sabendo que não há nada pelo que esperar, respondeu:
— Qual é, em sua opinião, a coisa mais valiosa do mundo?
O aprendiz, sem titubear, disse:
— Água!!!
E o mestre continuou:
— Se eu disser onde tem água, você aceita fazer a lavagem anual daquela latrina dos monges devotos da depuração intestinal?
O aprendiz sabia o que isso queria dizer, ele conhecia as lendas sobre transbordos de latrinas após uma obra só de um único monge de hierarquia superior, mas mesmo assim não pensou duas vezes e disse de sopetão:
— Sim!
E o mestre prosseguiu:
— Está começando a entender "os preços" da coisa mais valiosa do mundo!
Depois sorriu e acrescentou:
— Sempre estivemos caminhando ladeando um pequeno riacho escondido entre as rochas não muito longe, logo ali — indicou com um movimento de cabeça. — Vamos lá beber água. Mas não se esqueça que deve beber com calma, as coisas valiosas não podem ser usadas de forma desordenada ou elas perdem o valor, ou por nos matar ou porque deixam de ter serventia para nós pois as exaurimos!
Ambos logo chegam a um pequeno regato de águas límpidas. O aprendiz, após uma rápida molhada nos pulsos, se joga na água de cara, afundando-a em borbulhas.
O mestre senta na cabeça do aprendiz, que começa a se debater desesperado sem ar; o mestre ainda permanece vários looongos segundos sentado na cabeça do aprendiz. Quando percebe que o infeliz está realmente premente de oxigênio, levanta da cabeça do aprendiz e peida ao mesmo tempo que o aprendiz levanta a cabeça da água puxando em um hausto todo o ar e peido que havia em volta.
O mestre ficou olhando para o aprendiz sem dizer nada, até que o aprendiz começou a fazer careta de nojo, isso depois de duas golfadas recuperadoras do mais pútrido ar que poderia existir, começou a cuspir o ar e se afastar enojado do mestre.
Nesse momento, o mestre disse:
— O valor das coisas varia, o que não varia é que na real necessidade a coisa mais valiosa pode vir imersa com merda que ninguém recusa!
"A água que tanto desejava, atacou sem pensar e não observou que eu urinava na corrente logo acima de você, e bebeu como se fosse a água mais espetacular do mundo, a mais valiosa! Depois, afundado sem ar, desejou o ar mais que a água que havia bebido tão pouco, e não o suficiente para matar a sede, e, percebendo que o ar era a coisa mais valiosa do mundo, mais que a água, acabou respirando uma imensa golfada do mais pútrido peido que já soltei, e não foi uma, foram duas golfadas fortes!
"Conseguiu finalmente entender que o ser humano em situações extremas é capaz de coisas das quais sentiria a mais total repugnância quando em situação confortável? Na situação confortável, nada tem valor a não ser o seu conforto, na situação desesperada, tudo tem valor, menos o nosso conforto!
"As medidas dos desesperados, dos esperançosos e dos confortáveis não têm bom senso. "Desfrute cada coisa, cada momento como se fosse único e último, pois não sabemos até quando teremos as coisas mais valiosas do mundo. E, nesse caso, percebemos que a coisa mais valiosa do mundo é a nossa vida, pois sem nós mesmos, nada existe ou tem valor.
"De que adianta a água ou o ar, ou qualquer outra coisa menos vital, se não temos a vida para dar razão a todos esses valores?
"E a vida, o valor mais absoluto que existe, tampouco tem valor se não temos bom-senso.
"Não temos como decidir se a vida é mais importante que o bom-senso, até porque sem vida não há bom-senso!
"E o bom-senso só existe em vida, e nem toda vida usa do bom-senso.
O mestre, então, passou mais um tempo pensativo e, de forma displicente, disse:
— Se você estivesse forte, não teria se desesperado por água a ponto de agir de forma estabanada, e o mais importante: teria tido força para me arremessar longe quando em sua cabeça sentei, de forma que teria escapado do peido que soltei.
E caminharam juntos até o anoitecer, com algumas risadas discretas do mestre, que não deixaram de ser notadas pelo aprendiz.